É assim que o autismo se apresenta de forma diferente em meninas e mulheres

Os diagnósticos aumentaram em 175 por cento apenas na última década — com os maiores aumentos em meninas e mulheres.

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5/13/20263 min read

É assim que o autismo se apresenta de forma diferente em meninas e mulheres

Os diagnósticos aumentaram em 175 por cento apenas na última década — com os maiores aumentos em meninas e mulheres. Veja como nossa compreensão do autismo está mudando.

Meninas e mulheres estão sendo diagnosticadas com autismo em taxas mais altas, e pesquisadores apontam que isso se relaciona, em parte, a uma compreensão mais ampla e mais precisa das experiências vividas no espectro autista. Durante muito tempo, o autismo foi reconhecido principalmente a partir de apresentações mais clássicas, frequentemente observadas em meninos. Hoje, sabemos que essa visão era limitada.

Os diagnósticos aumentaram de forma expressiva nos últimos anos, com destaque para o crescimento entre meninas, mulheres e adultos. Esse aumento não significa, necessariamente, que existam mais casos do que antes, mas que estamos começando a reconhecer melhor formas de apresentação que durante muito tempo passaram despercebidas, foram mal interpretadas ou receberam outros rótulos.

Em muitos casos, o diagnóstico só acontece na adolescência ou na vida adulta. Isso pode ocorrer porque meninas e mulheres autistas, com frequência, apresentam características menos estereotipadas, mais internalizadas ou mais mascaradas. Muitas aprendem desde cedo a observar, imitar e ajustar seu comportamento para parecerem socialmente adequadas, mesmo às custas de grande esforço interno.

Além disso, pesquisadores vêm destacando que a experiência do autismo não pode ser reduzida apenas a dificuldades sociais visíveis. As diferenças sensoriais, por exemplo, ocupam um lugar central nessa vivência. Elas podem levar à sobrecarga, ao esgotamento e à necessidade de maior controle do ambiente, mas também ajudam a compreender que pessoas autistas frequentemente processam aspectos mais recortados do mundo com maior intensidade, profundidade ou resolução.

O que está mudando na compreensão do autismo?

O aumento dos diagnósticos em meninas e mulheres reflete, em parte, uma mudança importante na forma como o autismo vem sendo estudado e reconhecido. Estamos deixando de buscar apenas sinais mais clássicos e mais externalizados, e começando a considerar apresentações mais sutis, camufladas e marcadas por sofrimento interno.

Isso também significa revisar ideias antigas e estereotipadas sobre o autismo. Nem toda pessoa autista apresenta dificuldades evidentes de linguagem, isolamento social extremo ou comportamentos mais chamativos. Em muitos casos, especialmente entre meninas e mulheres, o autismo pode se manifestar por meio de exaustão social, sensação persistente de inadequação, hipersensibilidade, interesses intensos, necessidade de rotina, mascaramento e sobrecarga emocional.

Por que meninas e mulheres costumam ser diagnosticadas mais tarde?

Uma das razões é que muitas meninas e mulheres conseguem desenvolver estratégias de compensação desde cedo. Elas observam outras pessoas, imitam comportamentos, ensaiam respostas e aprendem a esconder sinais que poderiam ser percebidos como diferentes.

Também é comum que seus interesses intensos não sejam reconhecidos como parte do espectro, especialmente quando recaem sobre temas socialmente aceitos. Em vez de chamar atenção como “interesses restritos”, podem ser vistos apenas como traços de personalidade ou preferências fortes.

Além disso, muitas conseguem manter interações sociais básicas, mas vivem dificuldade significativa em aspectos mais complexos da convivência, como pertencimento, leitura de nuances sociais, manutenção de vínculos e regulação emocional em contextos interpessoais.

Como o autismo pode se apresentar de forma diferente em meninas e mulheres?

Em meninas e mulheres, o autismo frequentemente aparece de maneira menos evidente e mais internalizada. Muitas relatam ter se sentido diferentes desde muito cedo, mas sem conseguir nomear exatamente por quê.

Pode haver:

  • esforço constante para se ajustar socialmente;

  • exaustão após interações;

  • mascaramento frequente;

  • hipersensibilidades sensoriais;

  • interesses intensos que passam despercebidos;

  • forte autocobrança;

  • crises internas pouco visíveis;

  • ansiedade, depressão ou esgotamento como consequências secundárias;

  • sensação persistente de deslocamento ou não pertencimento.

Nem sempre essas características são reconhecidas como parte do espectro. Muitas vezes, são interpretadas apenas como timidez, sensibilidade, rigidez, ansiedade ou dificuldade emocional.

Diferenças sensoriais também ajudam a compreender essa experiência

As diferenças sensoriais têm papel importante na experiência de muitas pessoas autistas. Sons, luzes, texturas, cheiros, temperatura e outros estímulos podem ser percebidos de forma mais intensa ou mais difícil de filtrar.

Isso pode contribuir para sobrecarga, irritabilidade, cansaço e dificuldade de regulação emocional. Ao mesmo tempo, essa forma particular de perceber o ambiente também pode estar associada a uma experiência mais detalhada, mais profunda e mais intensa de certos aspectos do mundo.

Por isso, compreender o autismo em meninas e mulheres exige ir além da observação superficial do comportamento e considerar também aquilo que é vivido internamente.

Considerações finais

O crescimento dos diagnósticos em meninas e mulheres mostra que nossa compreensão do autismo está mudando. Estamos começando a reconhecer melhor experiências que por muito tempo foram invisibilizadas, mal interpretadas ou negligenciadas.

Mais do que um aumento numérico, isso representa uma mudança importante de perspectiva: compreender que o autismo pode se apresentar de formas diferentes e que muitas meninas e mulheres passaram anos sem reconhecimento justamente porque não correspondiam ao modelo antigo que se esperava encontrar.

Ampliar esse olhar é essencial para promover diagnósticos mais precisos, mais acolhimento e mais acesso a suporte adequado.

Psicóloga Sandra Roos

Atendimento especializado em saúde mental e neurodiversidade.

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