Relato de uma mãe: como a cannabis medicinal entrou no tratamento da filha autista
Kika conta como a cannabis foi um ponto de virada na vida da filha que convive com o espectro autista.
TEA - ESPECTRO AUTISTAAUTISMONEURODESENVOLVIMENTOVIDA ADULTA
Por Tainara Cavalcante
12/6/20244 min read


Relato de uma mãe: como a cannabis medicinal entrou no tratamento da filha autista
Nota editorial: O texto abaixo relata a experiência pessoal de uma mãe atípica e não deve ser interpretado como indicação geral de tratamento. O uso de cannabis medicinal em pessoas autistas exige avaliação médica individualizada, acompanhamento profissional e análise cuidadosa de riscos, benefícios e contexto clínico.
Kika conta como a cannabis medicinal representou um ponto de virada na vida da filha, Cibele, que convive com o Transtorno do Espectro Autista.
Na época da reportagem original, Cibele tinha 33 anos. Diagnosticada com TEA aos seis, foi criada em Florianópolis e, na infância, apresentava ausência de fala, hipersensibilidade a barulhos, seletividade alimentar e bastante agitação. Ao longo dos anos, passou por diferentes tentativas de tratamento medicamentoso, mas, segundo a mãe, os resultados não foram satisfatórios.
Maria Aparecida Fire Goulart, conhecida como Kika, relata que um dos primeiros remédios chegou a deixar a filha mais calma, mas também mais apática, menos expressiva e sem a mesma vivacidade emocional de antes.
Ao longo do tempo, a família tentou diferentes abordagens. Na adolescência, Cibele chegou a usar seis medicamentos ao mesmo tempo, o que, segundo a mãe, também coincidiu com o surgimento de convulsões. A família passou por mudanças alimentares, tentativas de tratamento integrativo e diferentes estratégias na busca por melhora clínica e qualidade de vida.
Ainda assim, segundo Kika, o quadro continuou se agravando, a ponto de Cibele precisar passar por internações psiquiátricas em momentos de crise.
O agravamento na adolescência
Na infância, Cibele apresentava um funcionamento que hoje poderia ser compreendido como compatível com TEA com menor necessidade de suporte. Foi alfabetizada e conseguia lidar relativamente bem com diferentes demandas. Com o passar dos anos, porém, esse quadro mudou de forma importante.
Na adolescência, houve aumento do uso de medicações, especialmente voltadas para ansiedade e regulação comportamental, mas, de acordo com o relato da mãe, a melhora não aconteceu como esperado.
Kika descreve esse período como uma fase muito difícil, marcada por tentativas repetidas de ajuste medicamentoso, piora clínica, impacto importante no funcionamento cotidiano e sofrimento intenso para toda a família.
O momento mais difícil
Em 2019, depois de anos tentando encontrar uma abordagem que pudesse ajudar mais efetivamente, a família chegou a um momento de exaustão. As crises se repetiam, o sono estava severamente comprometido e a rotina da casa passou a girar em torno do cuidado constante com Cibele.
Segundo a mãe, durante as internações as medicações conseguiam acalmar a filha apenas temporariamente, mas não produziam estabilidade duradoura. Kika também relata que, nesse período, Cibele desenvolveu esteatose hepática, quadro que associou ao uso prolongado de medicamentos.
A introdução da cannabis medicinal
Foi a filha mais nova de Kika, Valquíria, então estudante de medicina, quem mencionou a possibilidade da cannabis medicinal. A família conseguiu agendar avaliação com um médico da Universidade Federal de Santa Catarina que já trabalhava com essa abordagem terapêutica.
Após a consulta, Cibele iniciou o uso de óleo de cannabis obtido por meio de associação de pacientes. Segundo o relato da família, os efeitos positivos foram percebidos rapidamente. Kika descreve que, com poucas gotas, a filha já parecia mais relaxada e, no primeiro mês, foi possível retirar o antidepressivo.
Hoje, segundo a mãe, Cibele não utiliza mais outros medicamentos além da cannabis medicinal.
A percepção da família sobre os resultados
Kika descreve a experiência como surpreendente e transformadora. Segundo ela, a cannabis passou a ocupar um lugar importante no manejo dos sintomas e na estabilidade clínica da filha, especialmente após muitos anos de tentativas frustradas com outras medicações.
É importante destacar que esse é um relato individual, referente a uma experiência específica, e que respostas a qualquer tratamento podem variar de pessoa para pessoa.
Busca por informação e enfrentamento do preconceito
Ao mencionar a possibilidade de cannabis medicinal a médicos que acompanhavam a filha, Kika relata ter enfrentado resistência, críticas e até rompimento de vínculo profissional. A partir dessa experiência, decidiu estudar mais profundamente o tema para poder se posicionar com maior segurança.
Segundo conta, buscou formação em diferentes espaços, incluindo cursos e grupos de estudo voltados à cannabis medicinal, além de aprofundar seus conhecimentos sobre autismo, neurociência e processos de aprendizagem.
Kika relata que esse caminho também foi motivado por uma necessidade antiga de ser ouvida como mãe. Muitas vezes, percebia aspectos importantes do funcionamento da filha, mas sentia que suas observações não eram levadas a sério por não ter formação específica na área.
Hoje, Kika atua como professora de educação especial na prefeitura de Florianópolis.
Inclusão, cuidado e projeto social
Antes mesmo de conhecer a cannabis medicinal, Kika e outras mães atípicas já buscavam formas de promover inclusão social para crianças e adolescentes autistas. A partir dessa iniciativa, surgiu um projeto ligado ao surf, pensado como espaço de convivência, experiência sensorial, vínculo e participação.
Segundo ela, a associação Onda Azul oferece aulas gratuitas de surf desde 2015 e, ao longo dos anos, passou a se estruturar de forma mais ampla, com CNPJ, materiais próprios e instrutores. Em 2025, a instituição completa dez anos de atuação.
Kika conta que a associação também procura abrir espaço para diálogo e informação sobre diferentes formas de cuidado, incluindo a cannabis medicinal, sempre com responsabilidade e foco no acesso ao conhecimento.
Considerações finais
O relato de Kika mostra a trajetória de uma mãe que buscou, por muitos anos, alternativas para aliviar o sofrimento da filha e melhorar sua qualidade de vida. Sua experiência com a cannabis medicinal foi vivida como um ponto de virada importante, mas deve ser compreendida como uma experiência pessoal, situada em um contexto clínico específico.
Relatos como esse podem contribuir para ampliar o debate, reduzir preconceitos e incentivar discussões mais qualificadas sobre cuidado, escuta e individualização do tratamento em pessoas autistas.
Fonte: Relato adaptado a partir de matéria publicada em Cannalize em 05/12/2024. Acessado em 29/12/2024. https://cannalize.com.br/mae-cannabis-autismo-surpreendente
Psicóloga Sandra Roos
Atendimento especializado em saúde mental e neurodiversidade.
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