TDAH EM MENINAS E MULHERES
Como o TDAH se apresenta em meninas e mulheres
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5/13/20265 min read


TDAH em meninas e mulheres
Como o TDAH se apresenta em meninas e mulheres
Durante muito tempo, o TDAH foi descrito e reconhecido principalmente a partir de estudos e observações feitas em meninos. Por isso, a maior parte da literatura tradicional sobre o transtorno acabou se concentrando em manifestações mais visíveis de hiperatividade, impulsividade e comportamento desafiador, deixando em segundo plano formas de apresentação muito frequentes em meninas e mulheres.
Hoje, esse olhar vem mudando. Cada vez mais pesquisadores e profissionais têm chamado atenção para o fato de que o TDAH também se manifesta de maneira importante em meninas e mulheres, muitas vezes com características diferentes daquelas mais facilmente identificadas no sexo masculino.
Com isso, cresce também o número de mulheres diagnosticadas, especialmente a partir de uma compreensão mais precisa do tipo predominantemente desatento, que pode passar despercebido por muitos anos.
Por que meninas e mulheres costumam ser menos diagnosticadas?
Muitas pessoas, ao ouvirem falar em TDAH, ainda imaginam imediatamente um menino pequeno, inquieto, impulsivo e com dificuldade para ficar parado. Esse estereótipo contribuiu para que inúmeras meninas e mulheres não fossem reconhecidas adequadamente.
Em geral, meninos com TDAH chamam mais atenção na escola, em casa e em situações sociais, justamente porque costumam apresentar comportamentos mais externalizados. Já muitas meninas não parecem “dar trabalho” da mesma forma. Elas podem ser menos opositivas, menos desafiadoras e menos visivelmente hiperativas, o que faz com que suas dificuldades sejam ignoradas, minimizadas ou interpretadas de outra maneira.
Além disso, muitas escalas, questionários e critérios utilizados por muito tempo enfatizaram sinais como hiperatividade motora, impulsividade evidente e problemas de comportamento. Isso favoreceu a identificação de perfis mais típicos em meninos e deixou de fora muitas meninas cujos sintomas apareciam de forma mais sutil, mais internalizada ou menos disruptiva.
Nem todas as meninas com TDAH se apresentam da mesma forma
Assim como ocorre em meninos e homens, o TDAH em meninas e mulheres também pode se apresentar de formas variadas. Algumas terão características mais compatíveis com o tipo predominantemente desatento, outras com o tipo combinado, e outras ainda com manifestações mais marcadas de hiperatividade e impulsividade.
No entanto, mesmo quando os sintomas estão presentes, eles podem se expressar de maneira diferente. Por isso, muitas meninas passam anos sem diagnóstico, mesmo enfrentando prejuízos importantes no desempenho escolar, na autoestima, nos relacionamentos e na organização da vida cotidiana.
TDAH predominantemente desatento em meninas e mulheres
Meninas com perfil predominantemente desatento costumam ser vistas como sonhadoras, tímidas, distraídas ou “no mundo da lua”. Muitas aparentam estar ouvindo, mas sua mente está divagando. Outras parecem lentas, esquecidas, desorganizadas ou constantemente sobrecarregadas pelas exigências da rotina.
Na escola, podem apresentar dificuldade para concluir tarefas, acompanhar o ritmo das demandas, organizar materiais e entregar trabalhos no prazo. Como costumam ser menos disruptivas, frequentemente passam despercebidas, mesmo sem conseguir desenvolver plenamente seu potencial.
Em alguns casos, acabam sendo vistas de forma injusta como desinteressadas, menos capazes ou pouco esforçadas, quando na verdade enfrentam dificuldades importantes de atenção, organização e funcionamento executivo.
Também é comum que essas meninas e mulheres desenvolvam sintomas de ansiedade ou depressão ao longo do tempo, muitas vezes como consequência do esforço constante para lidar com dificuldades não reconhecidas.
TDAH com hiperatividade e impulsividade em meninas e mulheres
Quando meninas e mulheres apresentam sinais mais evidentes de hiperatividade e impulsividade, esses sinais nem sempre aparecem da mesma forma que nos meninos.
Em vez de uma hiperatividade motora tão clara, a agitação pode surgir mais na fala, na dificuldade de desacelerar pensamentos, na impulsividade verbal, na intensidade emocional e na dificuldade de conter reações. Muitas podem falar demais, interromper, ter mudanças bruscas de humor ou parecer inquietas por dentro, mesmo sem estar fisicamente “correndo pela sala”.
Também podem apresentar instabilidade emocional mais evidente, especialmente quando há comorbidades como ansiedade e depressão, que são bastante frequentes nesse grupo.
Por não se encaixarem completamente na imagem clássica do menino hiperativo, muitas dessas meninas e mulheres também acabam sem diagnóstico ou recebem outras explicações para suas dificuldades.
TDAH do tipo combinado em meninas e mulheres
No tipo combinado, estão presentes tanto dificuldades de atenção quanto aspectos de impulsividade e hiperatividade. Ainda assim, em meninas e mulheres, essa combinação nem sempre se manifesta de forma tão óbvia.
Algumas podem apresentar fala acelerada, dificuldade para organizar pensamentos, desorganização, esquecimentos frequentes, sensação de caos interno e tentativas constantes de compensar suas falhas para não parecerem incapazes ou desatentas.
Na adolescência, essa combinação pode aumentar a vulnerabilidade a comportamentos de risco, impulsividade em decisões importantes, dificuldades acadêmicas mais evidentes e exposição a situações prejudiciais, especialmente quando há sofrimento emocional e baixa autoestima associados.
Inteligência e bom desempenho podem mascarar o problema
Um ponto importante é que meninas e mulheres com maior capacidade cognitiva podem demorar ainda mais para serem reconhecidas. Muitas conseguem compensar suas dificuldades durante anos, especialmente nas fases iniciais da vida escolar.
Quanto mais inteligente a pessoa for, maior pode ser sua capacidade de criar estratégias para lidar com a desatenção, a procrastinação, a desorganização e as dificuldades de planejamento. Em alguns casos, ela consegue avançar até o ensino médio, a faculdade ou mesmo a vida profissional antes que os prejuízos se tornem mais visíveis.
No entanto, à medida que a vida se torna mais exigente, com demandas mais complexas de autonomia, organização, concentração e gestão do tempo, essas dificuldades tendem a aparecer com mais clareza. É nesse momento que as disfunções executivas costumam se tornar mais evidentes.
O que sabemos hoje sobre a proporção entre homens e mulheres?
Durante muito tempo, difundiu-se a ideia de que o TDAH era muito mais comum em meninos do que em meninas. Hoje, esse entendimento vem sendo revisto.
Pesquisas mais recentes sugerem que a diferença entre homens e mulheres pode ter sido superestimada por muitos anos justamente porque as meninas foram menos diagnosticadas. Isso significa que a antiga proporção de 4 para 1 pode refletir mais um viés de reconhecimento do que uma diferença real na ocorrência do transtorno.
Com o avanço dos estudos e o refinamento do olhar clínico, tornou-se mais claro que meninas e mulheres também podem apresentar TDAH em frequência muito maior do que se imaginava.
Por que esse olhar mais atento é tão importante?
Reconhecer o TDAH em meninas e mulheres é fundamental para evitar que elas cheguem à adolescência ou à vida adulta acumulando prejuízos sem compreender o que está acontecendo.
Quando o transtorno não é identificado, podem surgir anos de frustração, autocrítica, sensação de inadequação, sofrimento emocional, dificuldades acadêmicas e profissionais, além de baixa autoestima por não conseguir corresponder ao que os outros esperam.
Por isso, é essencial observar sinais de desatenção, desorganização, lentidão, sobrecarga, instabilidade emocional e dificuldades persistentes no funcionamento cotidiano, especialmente quando há histórico familiar de TDAH.
Considerações finais
O TDAH em meninas e mulheres existe, pode causar prejuízos importantes e ainda é subdiagnosticado. Muitas vezes, não falta sintoma — falta reconhecimento.
Ampliar a compreensão sobre como o transtorno se apresenta nesse grupo é um passo importante para diagnósticos mais precoces, intervenções mais adequadas e menos sofrimento ao longo da vida.
Olhar com mais atenção para essas diferenças não é exagero. É corrigir uma falha histórica no modo como o TDAH foi estudado, reconhecido e compreendido.
Psicóloga Sandra Roos
Atendimento especializado em saúde mental e neurodiversidade.
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